O Porto e as suas deliciosas Rabanadas

Esquina do Avesso, pain perdu com gelado de iogurte, falsas cerejas de chocolate e coulis de ginja, brandy e vinho do Porto. Esta criativa versão do chef Nuno Castro (de quem já aqui falamos), ao contrário de todas as seguintes propostas, apenas estará disponível durante o mês de Dezembro. 

Ao contrário do que a designação em inglês pode induzir (french toast), não foram os franceses os inventores da rabanada. É ao longínquo Império Romano que remonta a primeira receita conhecida, da autoria de Marcus Gavius Apicius (gastrónomo que se acredita ter vivido no séc. I). Numa das mais 500 receitas da sua extensa obra De Re Coquinaria encontra-se uma bem particular que se intitula Another Sweet dish:

"Break slice fine white bread, crust removed, into rather large pieces which soak in milk and beaten eggs fry in oil, cover with honey and serve"




1. Terreiro / Adega S. Nicolau (4€), se durante todo o ano é possível degustar esta deliciosa proposta, recomenda-se que aquando da reserva se confirme disponibilidade. Em caso negativo aceitam encomendas, desde que com mais de 24h de antecedência.

Com origem no mediterrâneo, desta primeira receita derivou aquilo que hoje no norte de Portugal conhecemos como rabanada (fatias douradas ou fatias paridas), em Espanha torrija e em França pain perdu, com registos escritos destas variantes a remontarem à idade média.


2. Cozinha do Manel (3€), rabanada embebida em calda de açúcar e servida com frutos secos. | 3. Restaurante Casa Inês (3€), uma das mais conhecidas rabanadas da cidade. Apresenta boa consistência mais seca por fora a promover um óptimo contraste com a cremosidade interior. 

Se a necessidade aguça o engenho, e sendo o pão, desde o seu surgimento, um dos pilares da alimentação, foi a intenção de aproveitar as suas sobras que esteve na origem desta receita que hoje se encontra espalhada um pouco por todo o mundo.


4. No Antigo Carteiro (3€) fazendo jus ao mote do restaurante "from nose to tail", a rabanada não podia deixar de marcar presença, com destaque para a calda pouco doce que ajuda a não enfartar em demasia, depois de uma refeição de sabores robustos.


Em Portugal, e em concreto no norte do país, existe uma forte tradição da rabanada, sendo uma importante marca identitária da gastronomia tradicional doceira nesta região do país - e não apenas no natal, sazonalidade que injustamente lhe é atribuída. De restaurante para restaurante, de família para família, são imensas as variantes existentes, com diferenças que vão desde o tipo de pão aos ingredientes que compõem a calda utilizada.
5. Itaipu (1€), pastelaria de influência brasileira que a serve rabanadas ano fora a um preço bem convidativo, para um pequeno almoço ou lanche reforçado. 6. Época Porto (4,5€), a pensar também nos pequenos almoços este café vegetariano e biológico apresenta as suas fatias douradas acompanhadas por fruta, compota e um creme bem aromático com especiarias.

Enraizada na gastronomia nortenha, são diversos os eventos anuais que a celebram, como o caso da Rota da Rabanada (em Caminha, mas no passado também na Trofa), com alguns locais a terem uma versão muito própria deste doce, como é o caso da cidade da Póvoa do Varzim que a celebra com a sua Rabanada à Poveira.

É, no entanto, sobre a relação da rabanada com a cidade do Porto que nos focamos. Aqui, de forma natural e espontânea, a rabanada é homenageada, relembrada e degustada em qualquer dia do ano (!), nos mais diversos espaços restaurativos, como prova a vasta oferta existente por toda cidade: da confeitaria ao restaurante tradicional, do café vegetariano à alta cozinha.

7. Café Majestic (4,5€), No mais emblemático café do Porto (hoje mais dado aos turistas do que aos locais que outrora aqui faziam sala de tertúlias) a rabanada chega à mesa com todo o seu esplendor, perfeita nos melhores dias. Com uma boa capa exterior mas seca por dentro,  o creme de ovo servido quente ajuda a dar a cremosidade necessária.

8. Também na Casa Ribeiro (3,7€) dá-se a conhecer coberta de doce de ovos, ainda que sem o mesmo esplendor visual, não fica aquém em sabor. É o tipo de rabanada que satisfaz aquele amigo/a que sempre diz "Ah e tal eu não gosto de rabanadas"! Convence mesmo os mais descrentes.  

9. Mito (5€)uma versão bem distinta esta que o chef Pedro Braga  serve ao comensal. Embebida em leite com matcha, é posteriormente panada em flocos aveia e finalizada com gelado de bacon e maple syrup. 

Às versões mais tradicionais, seguem-se outras tantas de cariz bem distinto, reflectindo o cunho próprio do seu autor. A cidade do Porto vive, nos mais recentes anos, um boom de criatividade ao nível da gastronomia, com a fixação de uma nova geração de chefs que regressa ao Porto depois da "obrigatória" passagem pelo estrangeiro (alguns dos quais, por lapso dos próprios certamente, ainda não se debruçaram sobre esta sobremesa! :D ). 


10. No Euskalduna pode escolher esta decadente versão da torrija espanhola com gelado de queijo da serra, como um dos vários momentos do menu de degustação (70€) deste espaço chefiado por Vasco Coelho Santos. Garantidamente, não se vai arrepender se optar por esta que é já uma das rabanadas mais famosas de Portugal! 

Quem segue o blog e em particular o instagram sabe que a rabanada é aquela sobremesa fetiche que poderíamos comer várias vezes ao dia, sem enjoar, e sobre a qual adoramos falar. Foi esse o ponto de partida para este artigo. Aos autores destas rabanadas, a quem não tem medo de arriscar, a quem não deixa esta tradicional sobremesa morrer no esquecimento, um grande bem haja. 

Sem comentários:

Enviar um comentário